21/10/2004 -
11h36m Em 'Let it bed', Arnaldo
Baptista mostra que ainda é mutante
 Leonardo Lichote - Globo
Online
RIO - Dizem que ele é louco por ser assim. Ele
responde dizendo que se eles são famosos, ele é Napoleão. Mentira,
claro, apenas para confundi-los - o império de Arnaldo Baptista é
outro. 22 anos depois de um acidente que o levou ao coma e quase o
matou, o mutante, autor da clássica "Balada do louco" (parceria com
Rita Lee), está de volta, lançando o CD "Let it bed". Nas treze
faixas do álbum, que vem encartado na última edição da revista
"outracoisa", o músico reafirma, como na canção, que é melhor não
ser o normal. Difícil duvidar. Se Rita Lee seguiu um caminho que a
levou com honras ao título de rainha do rock brasileiro e Sérgio
Dias foi para outro lado, amadurecendo seu virtuosismo, Arnaldo
mostra que continua na trilha de eterno Mutante.
- Os
Mutantes estão na minha vontade de descobrir, de pesquisar. Minha
filosofia mutante envolve letra, música e cultura - explica Arnaldo,
por telefone, de seu sítio em Juiz de Fora, com seu falar doce e
mineiro.
O compositor tem autoridade para carregar o legado
do grupo. Rogério Duprat, o maestro do tropicalismo, já declarou que
Arnaldo foi o cabeça da banda, na sua opinião o melhor que surgiu do
movimento que revelou também Caetano e Gil. Normal, então, a
expectativa de fãs, ilustres como Sean Lennon (o músico fez questão
de tocar com o mutante em seu show no Free Jazz Festival, há quatro
anos) ou anônimos, com a volta de Arnaldo aos discos. "Let it bed"
não os decepcionou.
- O CD é coerente com a carreira de
Arnaldo. Tem a temática da loucura, que ele usa desde sempre, seu
humor, os trocadilhos, sua investigação científica, com versos sobre
criogenia e energia solar - explica o John Ulhoa, guitarrista do
Pato Fu e produtor do CD.
John é um dos principais
responsáveis pela existência de "Let it bed". Ao lado do amigo
Rubinho Troll, ele apresentou Arnaldo a modernos recursos de
tecnologia, como programas que simulam toda a estrutura de um
estúdio profissional, e criou uma estrutura que permitiu a gravação,
espalhando microfones pela casa do compositor para registrar todos
seus arroubos criativos - Arnaldo não se adequaria ao esquema rígido
de um estúdio.
- Tive que inventar uma maneira de produzir
um disco do Arnaldo, que não se encaixa em nenhum manual de produção
- explica John. - Ele gravou todos os instrumentos da maneira menos
ortodoxa possível: primeiro baixo, depois piano, depois bateria.
Com os takes na mão, John ajustou-os no estúdio, acrescentou
algumas programações e orquestrações. De início, Arnaldo resistiu à
bateria eletrônica, mas depois soube, "mutantemente" se abrir para a
novidade. Com humor, claro:
- Achava que "loop" era um
negócio de avião - brinca. - De qualquer forma, acredito que hoje
falta um pouco do lado quente, latino, na música. Vejo muita
tecnologia. Às vezes, gravar um piano numa fita cassete funciona
melhor que a maior das tecnologias.
O disco tem a emoção
"latina" da fita cassete ("Cacilda") e a eletrônica (explícita em
canções como "LSD"). Sua relação ambígua com a tecnologia é expressa
em "Tacape", faixa que encerra o disco ("E até nos helicópteros/ Há
essa vontade de voltar/ pro tacape imenso").
"Let it bed"
não é apenas sobre tecnologia X humanidade. O disco é uma uma viagem
pela tempestade criativa e caótica da mente de Arnaldo, que ele
chama de "disco voador que piloto" - "... às vezes", faz questão de
ressaltar. Passa por folclore, Pica-Pau, clonagem de Cristo, energia
solar, motocicletas, vida depois da morte, amor. A jornada começa já
pelo título, criado há muitos anos, que faz uma brincadeira com "Let
it be", dos Beatles, e "Let it bleed", dos Rolling Stones.
-
Bed é cama, que lembra o coma no qual fiquei mergulhado. E toda
noite, dividimos nossa cama com nosso pensar - filosofa. - Antes de
dormir, costumo fazer uma resenha do que fiz no dia, penso nas
conseqüências dos meus atos, do que falei. "Let it bed" fala de
quando estamos deitados com um travesseiro, uma menina, um deus, uma
deusa...
O acidente que o levou ao coma - para muitos, uma
tentativa de suicídio. Arnaldo caiu (ou pulou) da janela do hospital
onde estava internado com uma crise de depressão e teve uma séria
lesão no crânio. O médico que o examinou na época disse que ele
nunca voltaria a compor. Músicas como a bela bossa nova lisérgica
"Bailarina", composta para "Let it bed", desmentem as previsões da
ciência.
A recuperação de Arnaldo segue os mesmos caminhos
surpreendentes e irônicos de sua música. Caminhos que estão nas
composições, novas e antigas, de "Let it bed" e nas músicas que não
são de Arnaldo incluídas no disco. É o caso de "Everybody thinks I'm
crazy", extraída de um filme do Pica-Pau de 1941. Ou "Gurum gudum"
("Fui andando no caminho/ Me encontrei com uma coruja/ Eu pisei no
rabo dela/ me chamou de bunda suja"), tema folclórico que seu avô
costumava tocar.
- Eu via vovô tocar seu violão, que ele fez
com canivete, e, menino, tentava acompanhar o dedo dele tocando
"Gurum gudum". Aprendi assim - conta.
O clássico spiritual
"Nobody knows", já gravado por nomes como Louis Armstrong, entrou
com pequenas modificações na letra, fazendo referências mais diretas
aos sofrimentos da trajetória de Arnaldo.
Entre as músicas
próprias destacam-se ainda a dançante "To burn or not to burn?", que
em apenas três versos une Shakespeare e reflexões sobre a sociedade
movida à combustão; "Cacilda", recuperada de uma velha fita cassete;
"Encantamento", que John conta que foi uma "composição instantânea",
com versos como "Gosto não se discurte"; "Ai garupa", pensamentos
soltos viajando no banco de uma motocicleta, que tem a participação
nos vocais de Lucinha Barbosa (mulher de Arnaldo e a maior
responsável por sua recuperação); e "LSD" ("Louvado seja Deus/ Que
nos deu o rock'n roll/ E os níveis de expansão"), a preferida do
compositor e do produtor. Sobre o disco que passeia entre o humor e
a investigação científica, Arnaldo faz uma avaliação bem a seu
estilo:
- Sou bobo de ficar pensando coisas esdrúxulas.
E a balada faz sentido mais uma vez. Definitivamente, mais
louco é quem diz que não é feliz.
|