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27 de março de 2005 Versão on line
CULTURA
21/10/2004 - 11h36m
Em 'Let it bed', Arnaldo Baptista mostra que ainda é mutante

Leonardo Lichote - Globo Online

RIO - Dizem que ele é louco por ser assim. Ele responde dizendo que se eles são famosos, ele é Napoleão. Mentira, claro, apenas para confundi-los - o império de Arnaldo Baptista é outro. 22 anos depois de um acidente que o levou ao coma e quase o matou, o mutante, autor da clássica "Balada do louco" (parceria com Rita Lee), está de volta, lançando o CD "Let it bed". Nas treze faixas do álbum, que vem encartado na última edição da revista "outracoisa", o músico reafirma, como na canção, que é melhor não ser o normal. Difícil duvidar. Se Rita Lee seguiu um caminho que a levou com honras ao título de rainha do rock brasileiro e Sérgio Dias foi para outro lado, amadurecendo seu virtuosismo, Arnaldo mostra que continua na trilha de eterno Mutante.

- Os Mutantes estão na minha vontade de descobrir, de pesquisar. Minha filosofia mutante envolve letra, música e cultura - explica Arnaldo, por telefone, de seu sítio em Juiz de Fora, com seu falar doce e mineiro.

O compositor tem autoridade para carregar o legado do grupo. Rogério Duprat, o maestro do tropicalismo, já declarou que Arnaldo foi o cabeça da banda, na sua opinião o melhor que surgiu do movimento que revelou também Caetano e Gil. Normal, então, a expectativa de fãs, ilustres como Sean Lennon (o músico fez questão de tocar com o mutante em seu show no Free Jazz Festival, há quatro anos) ou anônimos, com a volta de Arnaldo aos discos. "Let it bed" não os decepcionou.

- O CD é coerente com a carreira de Arnaldo. Tem a temática da loucura, que ele usa desde sempre, seu humor, os trocadilhos, sua investigação científica, com versos sobre criogenia e energia solar - explica o John Ulhoa, guitarrista do Pato Fu e produtor do CD.

John é um dos principais responsáveis pela existência de "Let it bed". Ao lado do amigo Rubinho Troll, ele apresentou Arnaldo a modernos recursos de tecnologia, como programas que simulam toda a estrutura de um estúdio profissional, e criou uma estrutura que permitiu a gravação, espalhando microfones pela casa do compositor para registrar todos seus arroubos criativos - Arnaldo não se adequaria ao esquema rígido de um estúdio.

- Tive que inventar uma maneira de produzir um disco do Arnaldo, que não se encaixa em nenhum manual de produção - explica John. - Ele gravou todos os instrumentos da maneira menos ortodoxa possível: primeiro baixo, depois piano, depois bateria.

Com os takes na mão, John ajustou-os no estúdio, acrescentou algumas programações e orquestrações. De início, Arnaldo resistiu à bateria eletrônica, mas depois soube, "mutantemente" se abrir para a novidade. Com humor, claro:

- Achava que "loop" era um negócio de avião - brinca. - De qualquer forma, acredito que hoje falta um pouco do lado quente, latino, na música. Vejo muita tecnologia. Às vezes, gravar um piano numa fita cassete funciona melhor que a maior das tecnologias.

O disco tem a emoção "latina" da fita cassete ("Cacilda") e a eletrônica (explícita em canções como "LSD"). Sua relação ambígua com a tecnologia é expressa em "Tacape", faixa que encerra o disco ("E até nos helicópteros/ Há essa vontade de voltar/ pro tacape imenso").

"Let it bed" não é apenas sobre tecnologia X humanidade. O disco é uma uma viagem pela tempestade criativa e caótica da mente de Arnaldo, que ele chama de "disco voador que piloto" - "... às vezes", faz questão de ressaltar. Passa por folclore, Pica-Pau, clonagem de Cristo, energia solar, motocicletas, vida depois da morte, amor. A jornada começa já pelo título, criado há muitos anos, que faz uma brincadeira com "Let it be", dos Beatles, e "Let it bleed", dos Rolling Stones.

- Bed é cama, que lembra o coma no qual fiquei mergulhado. E toda noite, dividimos nossa cama com nosso pensar - filosofa. - Antes de dormir, costumo fazer uma resenha do que fiz no dia, penso nas conseqüências dos meus atos, do que falei. "Let it bed" fala de quando estamos deitados com um travesseiro, uma menina, um deus, uma deusa...

O acidente que o levou ao coma - para muitos, uma tentativa de suicídio. Arnaldo caiu (ou pulou) da janela do hospital onde estava internado com uma crise de depressão e teve uma séria lesão no crânio. O médico que o examinou na época disse que ele nunca voltaria a compor. Músicas como a bela bossa nova lisérgica "Bailarina", composta para "Let it bed", desmentem as previsões da ciência.

A recuperação de Arnaldo segue os mesmos caminhos surpreendentes e irônicos de sua música. Caminhos que estão nas composições, novas e antigas, de "Let it bed" e nas músicas que não são de Arnaldo incluídas no disco. É o caso de "Everybody thinks I'm crazy", extraída de um filme do Pica-Pau de 1941. Ou "Gurum gudum" ("Fui andando no caminho/ Me encontrei com uma coruja/ Eu pisei no rabo dela/ me chamou de bunda suja"), tema folclórico que seu avô costumava tocar.

- Eu via vovô tocar seu violão, que ele fez com canivete, e, menino, tentava acompanhar o dedo dele tocando "Gurum gudum". Aprendi assim - conta.

O clássico spiritual "Nobody knows", já gravado por nomes como Louis Armstrong, entrou com pequenas modificações na letra, fazendo referências mais diretas aos sofrimentos da trajetória de Arnaldo.

Entre as músicas próprias destacam-se ainda a dançante "To burn or not to burn?", que em apenas três versos une Shakespeare e reflexões sobre a sociedade movida à combustão; "Cacilda", recuperada de uma velha fita cassete; "Encantamento", que John conta que foi uma "composição instantânea", com versos como "Gosto não se discurte"; "Ai garupa", pensamentos soltos viajando no banco de uma motocicleta, que tem a participação nos vocais de Lucinha Barbosa (mulher de Arnaldo e a maior responsável por sua recuperação); e "LSD" ("Louvado seja Deus/ Que nos deu o rock'n roll/ E os níveis de expansão"), a preferida do compositor e do produtor. Sobre o disco que passeia entre o humor e a investigação científica, Arnaldo faz uma avaliação bem a seu estilo:

- Sou bobo de ficar pensando coisas esdrúxulas.

E a balada faz sentido mais uma vez. Definitivamente, mais louco é quem diz que não é feliz.

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