(Entrevista via telefone, conexão Londres-Belo Horizonte, novembro de 2003 e janeiro de 2004) Só depois de um certo tempo gravando alcancei o know how do que eu estava fazendo e pensei: não acredito que estou fazendo algo tão bom. Como diziam os Beatles: with a little help of my friends. Esta ajuda tem sido muito importante nos últimos tempos. Quando ouvi tudo depois de produzido foi uma espécie de ‘total caixinha de surpresas’. Fizeram de uma forma que o rendimento ficou ótimo: tipo one man band. Outro lado interessante foi o pragmático da letra. O fato de eu ter à minha volta pessoas tão diversas, em termos de filosofia e ideologias, me levou a criar letras na hora buscando um espírito de total conexão. Também percebi algumas modificações, de falhas no meu instrumental no sentido de buscar uma performance melhor, experimentar mais. Mas o principal mesmo foi o amor: eu posso ter tocado todos os instrumentos neste disco, mas o principal foi ter tocado com amor. Por trás de algumas canções de Let it Bed Gurum Gudum: Tem a ver com minha memória, meu avô que tinha 14 filhos, era coronel e construiu o próprio violão. Há muitos anos ouvia o vovô entoar uma música que decorei – pode ter sido uma música antiqüíssima, ou do folclore, ou que ele criou na hora. Então tinha esta parte que encaixei em “Gurum Gudum”. Ele falava de ter uma vida rural e foi isso que tentei colocar na música. To Burn or not to Burn: Essa música é meu lado de contrabaixista aparecendo com mais destaque: a frase (base) foi a que bateu mais forte no meu coração. A motivação da letra, da filosofia ou o que for chamado – “To Burn or Not to Burn. What is the Question? What?”, tem a ver com Shakespeare: literatura inglesa, teatro e rock’n’roll. LSD: Esta tem a ver com Bach, que minha mãe gostava muito. Na época dele era difícil encontrar um órgão: Bach andava 15 quilômetros até a igreja para poder tocar um órgão. Esse foi o lado que me motivou, porque Bach compunha música para ícones e deuses. E “Louvado Seja Deus” também combinou com LSD, que tem a ver com “Lucy in the Sky with Diamonds”, de endeusar-se algo, de alguma coisa que se adora. Deve Ser Amor: Depois de um dia de trabalho árduo penso o que me levou adiante e às vezes acho que foi o amor que me motivou. Seja errado, seja certo, seja pesquisa: no sentido de que o rock pode ser forte ou fraco. Depende do amor que a gente sente quando está fazendo. Encantamento: Nessa coloquei um lado meu science fiction e fala de um ser de duas cabeças em um corpo – pensamentos diversos habitando um mesmo corpo. Existe uma tentativa de vida no lado de hibridez em que predominam a fome, a ânsia de saber e a satisfação acima de tudo. Tem ainda Cacilda, que fiz há 22 anos. Ai Garupa e Tacape: Eu já viajei de moto por todo o mundo. Essas músicas antigas vieram da bateria, o ritmo pulsante dos quilômetros, a vida, as emoções, as novidades: Born to be Wild. Imagino já é totalmente diferente, mas tem também o lado science fiction, em que a morte entra com um sentido bem mais profundo, em que as coisas místicas são substituídas por pensamentos e da pessoa que vive depois da morte sozinho e só: ser amado sem ter sexo, ouvir sem ter ouvidos, sentir cheiro sem nariz. É como uma entidade que alcança a eternidade, que pode ser encarada como uma coisa comum a todo mundo ou então uma parte muito ousada do ser humano: de ser eterna através do DNA. Carrossel: Esta traz um lado meu de estudos de piano com parque de diversão. Esta mesma frase faz parte do “Emergindo da Ciência” (música de 1978). Tacape: Tem a ver com pedra lascada, origem das espécies, Darwin. A origem das espécies se confunde com o lado de helicópteros: às vezes as pessoas andam em um helicóptero com todo aquele poder de bombas atômicas na mão e sentem uma certa necessidade de mostrar como um tacape, de se enfrentar com um tigre, que às vezes é mais perigoso que enfrentar Nova York com um helicóptero. Mas fica assim: um paradoxo entre a cultura atual e a da pedra lascada. Lidando com música eletrônica e computadorizada De certa forma é esquisito: lidar com bateria eletrônica, esta conexão com a máquina, de não se deixar envolver demais com a máquina. Aos poucos vou colocando isso no meu som, e a poesia, como forma de colorir este som. Está sendo ótimo. Fico anotando coisas no caderninho para não esquecer. Mas agora vou a Belo Horizonte pegar uns programas que você aperta um botão e já vem tudo na tela: mais rápido. Fãs de 13, de 20, de 30, de 55 anos.... Uma vez ouvi: será que a mídia é a cultura? A minha intenção é fazer com que o meu ser produza algum efeito na vida das pessoas num sentido em que a gente faça as coisas em harmonia. Eu meço a minha importância através disso, tentando modificar para o bem. Tanto eu como eles. Cem anos adiante A etapa humana atual é a da piromania, em que ela se perde queimando o petróleo, quando existe o resultado da eletricidade solar, que não polui nem gasta (de baixo custo). Mas seria ainda muito fresco (cedo) para eu falar de como encaro a humanidade. Existe hoje a criogenização, da pessoa poder viver eternamente numa suspensão, criogenizada, por exemplo. Enfim, posso encarar a vida de um jeito eterno.... Criei uma fórmula, uma tentativa minha de estudo e pesquisa a respeito do tempo. Isso é bem difícil, mas a fórmula é: T = M>C. Onde T é o tempo, que é igual a massa acima da velocidade da luz. O tempo pode tornar-se elástico no sentido de sermos mais rápidos. Mas estamos muito longe desses meus planos de ciência, que só vão acontecer daqui a cem anos. Enquanto isso, um futuro de sons... Estou treinando no violão algumas músicas que uma hora vão aparecer. Estão semiprontas. Tenho umas duas ou três que estou trabalhando arduamente, mas ainda em estado embrionário: já criei melodicamente então não será difícil gravar...Às vezes tenho estas inspirações folclóricas, antigas, do tempo de criança. Às vezes fica alegre e é neste sentido que estou começando a compor agora.” Entrevista via icq de Londres, com Rubstrol e John sobre as emoções por trás da gravação e produção de Let it Bed. (Novembro de 2003). Sonia Maia: Conhecendo o Arnaldo e sua
história, o que mais o surpreendeu quando você pegou o material
que o Rubstrol tinha recolhido nas gravações? SM – E continuou caótico?
Quero dizer, quando você pegou o material final, qual era a diferença
daquele dos primeiros dias? SM – Rubstrol acabou de comentar,
na mesma pergunta, que o Arnaldo trabalha com símbolos e símbolos
têm uma ressonância universal que é bem independente
da linguagem... SM – Como foi este trabalho de
tradução? SM – Quer dizer, na decisão
final você optou pela fidelidade máxima? SM – Comente uma de suas músicas
preferidas, por exemplo. Rubstrol – Tem "2 Burn or not 2 Burn", que é meio Arnaldo-bigbeat.....Essa dá para dançar... SM – Vai ganhar todas as pistas
de danças. Os DJ’s vão amar! Rubstrol – Sonia quer que eu comente algo sobre as músicas também...Acho que não vou entrar nessa empreitada, uma vez que seria uma tarefa vã tentar descrever a maçaroca de som que o Arnaldo é capaz de produzir. Costumo me referir ao método usado na gravação como "Captura de Vapor Acústico", o que praticamente explica como Arnaldo consegue em sua mente estar em A e B ao mesmo tempo, parando para descansar em C. Os barulhinhos e barulhões que ele criou naquele período de um mês em que passei na casa dele em Juiz de Fora têm estado entre os mais memoráveis que ouvi recentemente. John – Tem duas músicas que foram frutos de um processo diferente. “Cacilda”, que é feita a partir de uma demo de voz e piano em fita K-7... Peguei essa gravação e montei o arranjo em cima, fazendo orquestrações do piano, dobrando frases do piano com cordas e tal, uma coisa que eu tinha um pouco de pudor em fazer – queria colocar o mínimo possível de instrumentos externos. Mas fiz um pouco, ele ouviu e aprovou, depois terminei. Tentei fazer como se tudo fosse da mesma gravação original...A outra é “Tacape”, na verdade uma gravação antiga, sem interferências, apenas com a restauração do áudio. SM – Alguma nova idéia
para clips depois desse de animações com os desenhos de
Arnaldo? John – Arnaaaaaaldoooo!!!!!!!!!!! Entrevista com Fabiano Fonseca
e Daniel Albinati, do Andar Estúdio / Digitaria Há quanto tempo vocês conhecem o Arnaldo e o trabalho dele? Fabiano] Meu contato com o Arnaldo se iniciou no final dos anos 90. Fui proprietário de uma loja de CDs, a Urban Cave. A loja tinha um perfil especial com clientes ávidos por novidades do mercado vanguardista mundial, independente, pop, eletrônico...Tudo. Além dos álbuns solo do Arnaldo e dos Mutantes vendíamos também os cartões e camisetas que o Arnaldo fazia a mão. Lembro-me a primeira vez que o vi... Sorridente, perguntava sempre se eu tinha o disco solo do baterista do The Who... Entre uma visita e outra as relações se estreitaram, falávamos cada vez mais sobre música, sobre o futuro, sobre a vida... Quando inauguramos o Andar Estúdio, chamamos o Arnaldo para conhecer o espaço, e dissemos que, se ele quisesse tocar ou ensaiar lá, as portas estavam abertas para ele. Uma semana depois ele ligou, animadíssimo com a idéia. Ele chegou no estúdio muito feliz, nós o sentamos em uma confortável cadeira e ligamos os equipamentos. Ele começou a tocar compenetradamente, e depois de alguns minutos nos olhou e disse: “Pode gravar!!!”. Ligamos rapidamente os microfones e começamos a captar tudo que saía dele e de seu violão. Em uma tarde, registramos nada menos do que cinco músicas inéditas, surpreendetemente fortes, belas e crepusculosas...
[Fabiano e Daniel] Trabalhamos com produção musical em nosso estúdio há alguns anos já. Nesta época estávamos trabalhando em vários projetos, e principalmente estávamos muito envolvidos nas gravações da nossa própria banda, o Digitaria. Mesmo assim, preferimos dar um tempo em tudo e nos dedicarmos seriamente às gravações do Arnaldo. A cada sessão de gravação com o Arnaldo nosso envolvimento crescia e mais músicas maravilhosas iam brotando. Sabíamos que estávamos diante de algo realmente importante. Entre um cigarro e outro, Arnaldo fechava os olhos ouvindo sua voz soando pelas caixas de som e, animado dizia: "Posso gravar uma Segunda vez?". Não foram nem três nem quatro... muitas foram as vezes que esta cena se repetiu. Arnaldo aparecia sempre. Tinha um projeto na cabeça, estava obstinado. Quando mais tempo ele passava dentro do estúdio, mais músicas apareciam, como uma avalanche, um grito contido. Imediatamente comunicamos ao John (com quem já havíamos trabalhado juntos em uma música do Digitaria) que as gravações estavam acontecendo e resolvemos unir as forças. Arnaldo se sentia confiante e a cada encontro ficava maravilhado com as novas tecnologias da música eletrônica e a capacidade de misturar elementos, de fazer colagens sonoras, resgatar sonoridades antigas... As sessões de gravação eram regadas de muita amizade, longas conversas, livros, estórias... Arnaldo e Lucinha contavam estórias do passado, aspiravam o futuro... Nós mostrávamos novos caminhos, sanguinho novo, novos pontos de vista. Muita "chance ao suficiente” ...
Outro momento bacana foi após as gravações, quando fomos trabalhar, juntos com o John, na produção dessas canções. Foi outro momento maravilhoso, transformar lentamente todos aqueles takes em realidade. Comentem um pouco cada uma das músicas que vocês gravaram e os detalhes mais importantes em cada uma (falem do que quiserem: da parte técnica, do jeito que o Arnaldo tocou/cantou, da música em si etc). [Fabiano e Daniel] Das músicas que foram para o disco, trabalhamos em quatro: Bailarina, Ai Garupa, Imagino e Carrosel. “Bailarina“ foi nossa preferida. Saiu rapidamente, sem muitas delongas. Arnaldo sabia exatamente onde queria chegar, e nós também. Passamos mais três dias gravando novos takes de voz e violão, mas nenhum superou o primeiro, que foi um momento a parte. Encontramos inspiração para o arranjo nas entrelinhas das estórias do Arnaldo. O resultado é uma canção mítica, cheia de climas e texturas. Houve um período em que o Arnaldo resolveu mexer no baú de sua estória. Poucas pessoas tiveram acesso a músicas não lançadas oficialmente por ele."Vai Garupa" e "Imagino" foram os frutos deste reencontro... A primeira execução de "Vai Garupa" causou tanto furor que colocamos até a Lucinha para cantar junto. Pedimos para ele cantar e acompanhar junto, fazendo uma segunda voz. O resultado ficou tão bonito que imediatamente tivemos a idéia de incluir o vocal dela na música. Lucinha é um anjo na vida do Arnaldo. Achamos que seria legal se ela também estivesse registrada nesse álbum. Já “Imagino” aparece em uma versão bastante atual graças à nova roupagem tecnológica sobre as notas do piano do Arnaldo. Quando se ouve “Imagino” pela primeira vez não se sabe de onde nem de quando ela vem. Um tipo de estranheza comumente anunciado pelas vanguardas. Além dessas quatro, temos muito mais músicas gravadas... Muito ainda ficou para trás... canções breves, standards do folk americano, trilhas de filmes antigos, músicas inéditas, releituras, versões de canções anteriores do Arnaldo, spiritual negros americanos, canções country, etc... Sem dúvida alguma ainda existe muita energia dentro do Arnaldo. Muita coisa ficou guardado na memória de quatro paredes mas que certamente mudaram o coração de todas as pessoas envolvidas. Compartilhamos bons momentos de intensa troca com a dupla Arnaldo e Lucinha. Temos muito que agradecer ao John pelo grande apoio e trabalho de equipe e ao grande Marcelo Lopes, um elo essencial nesta corrente de amizade. Que venham mais discos... a casa continua aberta! --------------------------------------------------------------------------------------------------
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