ARNALDO DIAS BAPTISTA
Agradecimentos especiais: à Lucinha Barbosa, por ter me convidado a escrever este texto e sua incansável disposição em buscar e fornecer informações, sem as quais eu não teria conseguido realizar esta honrada empreitada. Marcelo Lopes, pela inestimável contribuição em todos os momentos, como na montagem da discografia no final deste texto. Nota introdutória Os DJs botaram o som para rodar nos pratos das pistas americanas e européias. Selos como o Omplatten e Luaka Bop re-editaram obras e levaram coletâneas para as lojas. Através desta equação, os tropicalistas e Os Mutantes elevaram as temperaturas da amena cena musical do final do século 20. “A gente sabia que algo assim deveria ter existido, mas não tínhamos a mínima idéia de que seria tão perfeito”, comentou Ben Ratliff, no The New York Times em 17 de maio de1998. Tudo bem, Ben, a gente também sabia que um dia a descoberta ia acontecer, só não imaginava que demoraria 30 anos. Os Mutantes, como era de se esperar, atingiram em cheio o mundo pop-rock. Kurt Cobain chegou a trocar bilhetes com Arnaldo Baptista e saiu do Brasil em 1993 com toda a discografia do grupo debaixo do braço. Beck chamou de Mutations seu CD lançado em 1999 repleto de influências tropicalistas. Sean Lennon parou o carro quando colocou o som dos Mutantes no disc-player e acabou contribuindo com parte do trabalho gráfico do CD Tecnicolor em 2000. A lista continua: Stereolab, Torloise, High Llamas... Wondermints. A obra dos Mutantes – e a de Arnaldo Baptista pós-Mutantes – é até hoje uma das mais representativas do pop-rock brasileiro. Talvez por conta disso exista uma dificuldade em dissociar Arnaldo Baptista dos Mutantes ou lhe conceder o merecido lugar de destaque no grupo e na história da música brasileira. Esse desvio histórico já havia sido apontado pelo maestro Rogério Duprat – arranjador de Os Mutantes e quem apresentou o trio aos tropicalistas. Duprat comentou ao ser entrevistado para o vídeo-documentário Maldito Popular Brasileiro sobre Arnaldo, de Patrícia Moran (1990): “Os Mutantes foram a coisa mais importante do tropicalismo. E ninguém conseguiu deixar isso claro. Mas eu sei bem disso e que a cabeça disso tudo, a cabeça dos Mutantes era o Arnaldo Baptista. Insisto e resumo, em poucas palavras: o Arnaldo é responsável por quase tudo que aconteceu de 1967 para frente”. Quando perguntado(1) por que havia deixado o grupo em 1973, o baixista Liminha explicou: “Com a saída de Arnaldo, os Mutantes perderam todo o carisma. Ele era brilhante”. O lançamento de Let it Bed pode vir
a mudar este estado das coisas. O disco já é um dos mais
esperados da crítica e público. E pela sua beleza, espera-se
que Let it Bed impulsione a volta às prateleiras de pelo menos
outros dois trabalhos solos de Arnaldo Baptista: Loki? e Singin’Alone.
Mas a obra de Arnaldo pós-Mutantes não re-começa
em Let it Bed e não se fecha nestes discos. Vai muito além.
Poeta, músico e ícone brasileiro Arnaldo Dias Baptista nasceu em São Paulo em 1948. Seu pai, César
Dias Baptista, era jornalista, poeta e cantor lírico. A mãe,
Clarisse Leite Dias Baptista era pianista concertista erudita e foi a
primeira mulher no mundo a escrever um concerto para piano e orquestra.
Nesta atmosfera foram criados os três filhos do casal: Cláudio,
Sérgio e Arnaldo (1). Toda esta bagagem seria levada para Os Mutantes, que se formou como tal em 1967, resultado de várias outras formações de bandas originadas nos tempos do colégio. Segundo Manoel Berenbein – produtor da Phillips no final dos anos 60 e quem apresentou o trio para a gravadora – os Mutantes só tiveram seus LPs gravados graças à coragem e impulso do francês Alain Troussat, então presidente da Philips. Alain deixaria o posto no início de 1968, porque era bibliófilo e não encontrava livros para ler no Brasil por causa da forte censura imposta pela ditadura militar. Uma das verdades da biografia do grupo é que, terminado o contrato, a Phillips apresentou a porta de saída aos Mutantes. Eles nunca foram grandes vendedores de discos, mas criaram uma legião fiel de fãs pelo país: faziam muitos shows e participavam de programas e comerciais de TV. Um ano depois de deixar Os Mutantes (1973), Arnaldo entrou em estúdio para produzir seu primeiro disco solo, Loki?, uma obrigação contratual que a gravadora teve de cumprir. Arnaldo chamou os ex-Mutantes Dinho (bateria) e Liminha (baixo e vocais) e o arranjador Rogério Duprat para participar do LP. Rita Lee também veio para alguns backing vocals. Mas o público mal soube da existência de Loki?, que pouco depois desapareceria do mercado. Quem teve a chance, comprou. Outros tiveram que se contentar em copiar de quem por ventura estava lá na hora certa, olhando na prateleira certa da loja. Loki? é até hoje considerado pelos críticos um dos discos mais geniais da música brasileira. Toda a obra solo de Arnaldo Dias Baptista (e mesmo a com os Mutantes) está fora de catálogo ou nunca foi gravada em estúdio. Uma galeria de mais de 30 músicas, finas e poderosas jóias musicais, testemunho sonoro da genialidade de Arnaldo. É o caso do aclamado solo Loki?, de 1975. É o caso mesmo de Singin’ Alone, gravado em 1980/81, lançado só em 1982 pelo selo independente Baratos Afins e relançado em 1995 pela Virgin. A produção de Arnaldo de 1978 a 1979 com a Patrulha do Espaço (Elo Perdido e Faremos uma Noitada Excelente...), nunca foi lançada em CD. Do LP Elo Perdido existem ainda cinco músicas que faziam parte da master, mas não foram incluídas no LP e simplesmente sumiram. Só ficou mesmo um registro em K-7. Por conta disso, foram apelidadas pelo círculo íntimo de Arnaldo de Elo Mais que Perdido. São elas: “Imagino”( resgatada em Let it Bed), “Singin’ Again”, “Cowboy”, “Sanguinho Novo” e “Sr. Empresário”. Todos os discos dos Mutantes estão também fora de catálogo e só podem ser comprados no Brasil via mercado internacional. Tecnicolor – gravado pelo grupo na Paris de 1970 e repleto de versões em inglês – foi lançado só em 2000 pela Universal e já se tornou outra raridade no Brasil. Quando encontrado, custa o dobro de um CD comum. Giving enough a chance Arnaldo sempre teve um público ávido por sua música e poesia. Mesmo depois do sério acidente que sofreu em 1982 e o conseqüente longo período de recuperação, Arnaldo continuou sendo cultuado pelas gerações seguintes, nos bares, nos festivais de música, nos centros acadêmicos, nas regravações de suas músicas por dezenas de grupos e artistas, do mainstream ao underground. Uma das mais recentes cartas de fãs é de uma garota de 13 anos. “É uma coisa de pai para filho mesmo – o pai era fã e passa isso para o filho”, comenta Lucinha Barbosa, companheira de Arnaldo. “Tem este enfoque da mensagem do Arnaldo depois do Loki?. Existe uma tecla em que todos batem quando vêm falar com ele: ‘você mudou a minha vida!’”. Mesmo durante o tempo em que se recuperava, Arnaldo não parou de produzir. Lucinha Barbosa, sua companheira desde o acidente, levou-o para um belo sítio nos arredores da cidade de Juiz de Fora, estado de Minas Gerais. Rodeado pela natureza, Arnaldo descobriu o desenho e a pintura como terapia ocupacional – pareciam centenas de quadros espalhados pela casa quando o entrevistei pela primeira vez em 1989. Escreveu um total de oito livros de ficção científica. Tornou-se vegetariano. Em 1987 lançou o LP Disco Voador, gravado no sítio de forma precária. Quem conhece Arnaldo sabe que o amor incondicional de Lucinha foi o elemento auspicioso em seu processo de recuperação. Lucinha e Arnaldo se viram pela primeira vez em 1973 na versão brasileira do Woodstock, o Festival de São Lourenço. Lucinha voltou a encontrá-lo em 1977 e passou a ser uma das namoradas. “Era um relacionamento sem compromissos e obrigações”, explica ela. Arnaldo passou a aparecer novamente em público a partir de 1989, quando foi homenageado na coletânea Sanguinho Novo por doze bandas de peso do rock brasileiro dos anos 80. Participou do último dos três dias de shows de lançamento do LP no Aeroanta, em São Paulo. Em 1990, fez sua primeira Exposição de Desenhos e Pinturas no centro Cultural da Universidade Federal de Minas Gerais. Em 1992, a mesma exposição seguiu para a Galeria da Pizzaria Cristal em São Paulo. Em 1993 fez outra Exposição de Pinturas no Centro Cultural da Universidade Federal de São Carlos. Com a legião de fãs jovens crescendo, começou a pintar camisetas e cartões. No mesmo ano foi convidado especial na comemoração dos onze anos do Circo Voador no Rio de Janeiro, pintando um quadro ao vivo durante a apresentação do músico Celso Blues Boy. Em 1995 regrava um de seus hits, “Balada do Louco”, para ser incluído no relançamento de Singin’ Alone pela Virgin. Em 2000, Arnaldo começou a subir no palco de grandes eventos. No mesmo ano fez uma participação especial ao lado de Sean Lennon no Free Jazz Festival. Em april de 2001 foi convidado para o festival April Pro Rock, em Recife. Junto de Lobão, tocou clássicos como “Sanguinho Novo”, “Sexy Sua”, “Ando Meio Desligado” e “Senhor Empresário”. Como descreveu a jornalista Débora Nascimento, “a atmosfera de reverência (a Lobão) não se comparou à reação do público à chegada de Arnaldo Baptista”. Em dezembro, subiu novamente ao palco no show de lançamento na praia de Copacabana do CD Dê uma Chance à Paz, tributo para os 20 anos da morte de John Lennon. Arnaldo participou de duas faixas, com duas versões diferentes para o clássico de Lennon “Give Peace a Chance”. Uma traz o arranjo de Charles Gavin, dos Titãs e Andreas Kisser, do Sepultura, para o vocal de Arnaldo. A outra vem com produção de Yuka Honda & Cibo Matto. O lançamento do CD foi vinculado à Campanha Contra a Violência e os royalties doados à organizações não governamentais do Rio voltadas ao combate à violência, como Viva Rio e Sou da Paz. Mas foi já em 1995 que Arnaldo retomou a música de forma mais sistemática, depois de Lucinha ter conseguido finalmente juntar verba para completar o estúdio no sítio de Juiz de Fora. Compraram primeiro dois amplificadores valvulados Audio Research: “os melhores do mundo”, comentou Arnaldo durante a escolha. Nesta época ele também ganhou um baixo Gibson SG igual ao de Jack Bruce, do Cream, de um amigo-fã. “Aí incorporamos duas baterias, um piano”, contou Lucinha. Jack Bruce faz parte da lista melhor dos melhores de Arnaldo Baptista. No famoso exercício: ‘Quem você chamaria para uma banda?’, Arnaldo não titubeia: Jimmy Page, do Led Zeppelin; Nigel Olson, ex-baterista do Elton John e Tony Kaye, tecladista do Yes. Let it Bed Vários artistas brasileiros já haviam convidado Arnaldo para gravar um CD. Mas colocar Arnaldo dentro de um estúdio, com pressões de tempo e orçamento, não era exatamente a química mais adequada. “O processo de criação do Arnaldo era o de anotar idéias no caderninho. Ele tem várias capas de Let it Bed (o título existe há 14 anos). Mas tinha aquela coisa embutida, de não conseguir botar para fora”. Junta-se à essa dificuldade a vontade de fazer tudo sozinho. “Mas ele precisava de um engenheiro de som, digamos”, comentou ainda Lucinha. A idéia de finalmente gravar Let it Bed aconteceu quando John, da banda Pato Fu, foi a Juiz de Fora montar um PC para Arnaldo com vários programas de áudio. John e Rubinho Trol (2) começaram a mostrar ao Arnaldo as possibilidades dessas novas tecnologias, recursos que há alguns anos só eram possíveis em estúdios caríssimos e agora estavam bem à mão, para serem usados em casa mesmo. “Por isso este disco é o encontro de Arnaldo com esta tecnologia”, explicou John. “Uma coisa era importante para nós”, continuou John. “Não queríamos um CD que soasse como um disco moderninho de música eletrônica com samples do Arnaldo. Isso seria fácil fazer. Queríamos que ele registrasse à sua maneira suas novas canções e depois ajudaríamos a dar um acabamento à altura de seu talento”. John e Rubinho levaram para o sítio equipamento suficiente para um bom home-estúdio. Logo de cara perceberam que Arnaldo queria tocar de tudo e passava muito rapidamente de um instrumento para outro. Por isso decidiram espalhar microfones por todo o estúdio do sítio, deixando tudo ligado o tempo todo para manter o momento criativo sempre em alta. “Rubinho trouxe seu PC de Londres. Gravamos usando o software Cubase e uma interface M-Audio Delta 44, que nos permitia gravar 4 canais por vez. O que parece pouco, mas o suficiente para este disco, já que Arnaldo iria tocar tudo, um instrumento por vez”, conta John. “A AKG nos emprestou os microfones e headphones, eu levei preamps, mixer, guitarras e outras coisas. Uma curiosidade é a guitarra Pignose com um alto-falante embutido no corpo, que Arnaldo experimentou e acabou usando em algumas gravações”. John deu algumas instruções básicas para Rubinho, “apenas para ele não cometer nenhuma gafe tecnológica irreparável”. Mas logo ficou claro que o mais importante era o momento, a atmosfera, a tranqüilidade para que Arnaldo pudesse registrar tudo que quisesse, quantas vezes quisesse e na hora que tivesse vontade. “E isso o Rubinho soube conduzir muito bem”. “Depois de tudo registrado, voltamos para meu estúdio em BH, onde transpusemos as sessões de Cubase/PC para o sistema do meu estúdio que é Logic Audio/Mac. Lá não gravamos mais nada: apenas acrescentei algumas programações e instrumentos virtuais”, explica John. Tudo foi editado e mixado aos poucos no estúdio de John. “Cada vez que Arnaldo vinha à minha casa ouvíamos tudo e ficávamos mais felizes com o resultado”. “As músicas feitas aqui em Belo Horizonte, gravadas no Andar Estúdio, foram mais ou menos no mesmo esquema de Juiz de Fora – têm um clima diferente, principalmente em ‘Ai Garupa’, que é: num estudiozinho, dois garotos gravando seu herói. É emocionante”, completaria John em sua entrevista junto com Rubinho Trol via icq, transcrita mais adiante. “Para mim foi uma glória o Arnaldo ter vencido esta barreira
de compor”, comentou Lucinha. “E os médicos disseram
que ele nunca mais iria criar. Mas esta é a prova dos 9: de que
o cérebro toma caminhos inusitados e tem uma capacidade de recuperação
ainda desconhecida da ciência.”
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