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CD I
01 - Don Quixote
02 - Caminhante Noturno
03 - Ave Gengis Khan
04 - Tecnicolor
05 - Virginia
06 - Cantor de Mambo
07 - El Justiciero
08 - Baby
09 - I'm Sorry Baby
10 - Top Top
11 - Dia 36

CD II
01 - Fuga nº II
02 - Le Premier Bonheur du Jour
03 - Dois Mil e Um
04 - Ave Lucifer
05 - Balada do Louco
06 - I Feel a Little Spaced Out
07 - A Hora e a Vez do Cabelo Nascer
08 - A Minha Menina
09 - Bat Macumba
10 - Panis et Circensces


 

MUTANTES AO VIVO - BARBICAN THEATRE - LONDRES
(Sony & BMG, 2006) - Produção: Sérgio Dias.

A volta do Mutantismo
O Rock and Roll já é um senhor de mais de 50 anos. Enfim, o tempo lhe permitiu começar a acertar uma dívida histórica. Isto é, uma dívida futura: “como entender, assimilar e conviver com seu passado?”. Como viver e entender o “sofrer”, como cantou Tom Zé, “de juventude”?
O escritor Rubem Braga, falando sobre a crônica jornalística, comentou: “A verdade não é o tempo que passa, a verdade é o instante”. Se o Rock é volátil, um gás, como cantou Jimi Hendrix, como viver a eternidade do instante? Como viver esse único tempo?
B. B. King completa, este ano, 83 anos. Para os fãs do Blues, ele não está velho. João Gilberto está com 76 anos. E ainda é o grande nome da Bossa Nova.
O Rock, enfim, começa a entender o jogo dialético entre “tempo” e “instante”, entre o que já está inscrito na história e o que ainda esgarça, com inventividade, a história.
A volta dos Mutantes vem, em boa hora, saldar essa dívida e responder, de vez, a questão: “se o grupo foi e é o exemplo mais perfeito da revolução do rock brasileiro e um dos maiores nomes do rock internacional, por que encapsular sua trajetória em apenas cinco anos (1968-1972) de produção fonográfica?
O acervo do Beatles, vez ou outra, é bem revisitado por Paul McCartney e George Martin. Por que não permitir que a revolução-Mutantes continue?
Tirando o fogo amigo (as críticas de Rita Lee e a recusa de Liminha), quando foi anunciada a volta do grupo, as expectativas foram as mais diversas, da dúvida ao medo, de alívio ao “até que enfim”.
Mas o que poderíamos esperar dessa volta? Como o núcleo Arnaldo Baptista – Sérgio Dias & Dinho se comportaria “quimicamente” trinta e cinco anos depois? Quem e como substituir a voz emblemática de Rita Lee? De que instrumental e de quais arranjos vestir “clássicos” que trazem o grupo em seu apogeu sob a maquinaria sonora do maestro Rogério Duprat?
A resposta foi sábia. O grupo ressurgiu no “exílio”, longe das expectativas e das ansiedades, em um evento em Londres que comemorava a Tropicália para além dos muros musicais, a mostra/exposição “Tropicália – a revolution in brazilian culture”. Que fez um mapeamento amplo do movimento: música + poesia + artes plásticas + cinema + teatro + arquitetura + dança + política + teoria + história. Com um show no The Barbican Center, em Londres, Inglaterra, em maio de 2006.
O material-show/disco, lançado agora em CD/DVD, é impecável. O grupo, sob a batuta de Sérgio e a criatividade de Arnaldo, conseguiu unir o mais experimental da Tropicália aos melhores elementos da psicodelia, de ontem, hoje e sempre.

Hoje o grupo tem dez integrantes: os oficiais: Arnaldo Baptista, teclados e voz; Sérgio Dias, guitarra e voz; Dinho Leme, bateria; mais a voz, em participação mais do que especial, de Zélia Duncan, uma mutante por natureza; os backing vocals de Fabio Recco e Esmérya Bulgari; os teclados de Vitor Trida e Henrique Peters; o contrabaixo de Vinicius Junqueira; e a percussão de Simone Soul
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O repertório é um “the best”. Há música dos cinco álbuns, da fase heróica, do grupo. Do primeiro disco, “Os Mutantes”, de 1968: “Panis et circencis”; “Minha menina”; “Bat macumba”; “Le premier bonheur du jour” e “Ave Gengis Khan”. Do álbum “Mutantes”, de 1969, “Dom Quixote”; “Dia 36”; “Fuga n.2” e “Caminhante noturno”. Do “A divina comédia ou ando meio desligado”, de 1970, “Ando meio desligado”; “Ave Lúcifer” e “Desculpe, babe”. Do “Jardim elétrico”, de 1971, “Top top”; “Technicolor”; “El justiciero” e “Virgínia”. E do “Mutantes & Seus Cometas No País do Baurets”, de 1972, “Cantor de mambo”; “Balado do louco” e “A hora e a vez do cabelo crescer”.
Sérgio Dias está em uma forma impressionante. Zélia Duncan, mesmo participando pouco, mostra que a escolha foi acertada. Arnaldo aparece com suas tiradas surreais e seu vocal característico. Dinho continua preciso e fundamental. Os demais músicos assumem, com louvor, a função de co-participantes.

A caixa – com dois CDs e um DVD –, lançada pela Sony & BMG, mostra na íntegra o show de Londres. CDs e DVD trazem a mesma seqüência, como em um jogo de mise-en-abyme, de bonecas russas, dentro da maior, outra e outra e outra...
Começa com a poesia concreta (à maneira mutantista) de “Don Quixote”, com suas aliterações e paronomásias, e termina com a crueldade tropicalista de “Panis et circensis”, de Gilberto Gil & Caetano Veloso. Ao longo do show, o tempo vai e volta. Pára e retorna. Como coisa móvel, flexível, sem cronologia. Como se o grupo, na verdade, em seu período áureo (68-72), tivesse lançado um longo álbum quíntuplo. As canções embaralhadas mostram melhor a planta baixa o plano-piloto do estilo-Mutantes.
Provando, mais uma vez, que o grupo não é apenas um nome na plêiade-Rock. Mas um “modo de fazer”, um estilo, um subgênero, para usarmos uma terminologia de Roy Shuker (“Vocabulário da música pop”), dentro do próprio Rock: o Mutantismo.
O que explica a admiração de artistas tão diferentes em relação à obra do grupo. De David Byrne a Kurt “Nirvana” Cobain. Passando por Beck, Sean Lennon, Beastie Boys, Pizzicato Five e Belle & Sebastian.

Afinal, o que foi apresentado nessa “reestréia” é apenas um pequeno – mas significativo – extrato do “baú dos Mutantes”, ainda há material para pelo menos dois novos lançamentos.
O que virá, ainda não sabemos. Mas, com certeza, é mais combustível (não-poluente).
Provando que, ainda vale a pena continuar com e na revolução-Mutantes.
(Marcelo Dolabela - bhz julho/2007).


 
 


1-Panis Et Circenses
2-A Minha Menina
3-O Relógio
4-Maria Fulô
5-Baby
6-Senhor F
7-Bat Macumba
8-Le Premier Bonheur Du Jour
9-Trem Fantasma
10-Tempo No Tempo
11-Ave Gengis Khan

 

  MUTANTES (Polydor, 1968) - Produção: Manoel Barenbein

Primeiro álbum do grupo. É o disco tropicalista da banda. Espécie de carta de princípio, reúne, em suas 11 faixas, um pouco das propostas e possibilidades futuras. Com arranjos de Rogério Duprat e as participações de Jorge Ben no violão e voz, e do baterista Dirceu, o faz um mixer das propostas "fundamentalistas" da Tropicália - Panis et Circenses, Bat macumba e Baby - com a irreverência anárquica dos Mutantes. Fazendo de todos os absurdos, todas as incosequências: possibilidades - confrontar o principal parceiro de Luiz Gonzaga, Humberto Teixeira (Adeus Maria Fulô) com a existencialista-pop Françoise Hardy (Le Premier Bonheur du Jour); misturar Jorge Ben (A Minha Menina), com uma versão (não creditada, do pai César Dias Baptista) de uma semi-conhecida canção do grupo norte-americano The Mamas and The Papas (Tempo no Tempo / Once There was a Time i Thought) a uivos pré-históricos em homenagem a Gengis Khan (Ave Gengis Khan) e uma paródia kafkaniana (Senhor F). Completam o álbum: O Relógio e Trem Fantasma. (Marcelo Dolabela - bhz out/nov 1999).


 
 

1-Dom Quixote
2-Não Vá Se Perder Por Aí
3-Dia 36
4-2.001
5-Algo Mais
6-Fuga Nº II Dos Mutantes
7-Banho de Lua
8-Ritta Lee
9-Mágica
10-Qualquer Bobagem
11-Caminhante Noturno

 

 

 

  MUTANTES (Polydor, 1969) - Produção: Manoel Barenbein

Depois da estréia em 1968, o Mutantes, agora sem o artigo Os, lança, em 1969, o primeiro álbum dentro da verdadeira estética mutantropicalista. O álbum de 69 é o mais experimental do grupo. Não há nehum limite. Tudo - literalmente - tudo é possível. Tudo é funcional em sua estranheza. Da capa - com o trio simulando Dom Quixote - Sancho Pancha e Dulcinéia noiva - a audácia das audácias: gravar um jingle, da Shell, em um disco (Algo Mais); para o universo pop, o grupo constrói seus dois maiores hits (Fuga nº 2 e Caminhante Noturno); regrava Celly Campello (Banho de Lua); incorpora recursos paranomásicos da poesia concreta, com o auxílio do "pai" César Dias Baptista, em Dom Quixote; dialoga magistralmente com a tropicália enviesada de Tom Zé, em 2001 e Qualquer Bobagem; grava iê-iê-iê (Não vá se perder por aí) e psicodelia (Dia 36, parceria como o hippie performático Johnny Dandurand) e por fim, faz, talvez a primeira, meta-canção da MPB, isto é, uma canção falando sobre a própria cantora (Rita Lee). O álbum de 69 traz - ainda de que forma implícita - a participação dos outros dois mutantes: o baterista Dinho (Ronaldo Leme) e o contrabaixista (que no disco tocou viola) Liminha. (Marcelo Dolabela - bhz out/nov 1999).

 
 

1-Ando Meio Desligado
2-Quem Tem Mêdo de Brincar de Amor
3-Ave Lúcifer
4-Desculpe Babe
5-Meu Refrigerador Não Funciona
6-Hey Boy
7-Preciso Urgentemente Encontrar Um Amigo
8-Chão de Estrêlas
9-Jôgo de Calçada
10-Haleluia
11-Oh! Mulher Infiel

 

 

  A DIVINA COMÉDIA OU ANDO MEIO DESLIGADO (Polydor, 1970) - Produção: Arnaldo Sacomani

Depois de reler o Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, o Mutantes parte rumo ao inferno da Divina Comédia e reconstrói o poeta italiano Dante Alighieri em versão pop-psicodélica. Se o álbum anterior foi experimental, este de 70 é - no sentido mais amplo - revolucionário. Nunca, na história da música brasileira, um grupo/artista foi tão longe em radicalidade. A Divina Comédia dos Mutantes jogou por terra todas as divisões e segmentações musicais. pop - experiência - vanguarda - cafonice - rigor - informalidade - rock, tudo se fundiu. Roberto Carlos & Erasmo Carlos (Preciso Urgentemente Encontrar um Amigo) com Sílvio caldas & Orestes Barbosa (Chão de Estrelas - o melhor arranjo - de Rogério Duprat - já realizou na MPB) bate cabeça com Dante (Ave Lúcifer e Oh! Mulher Infiel. Ao quinteto - Arnaldo - Dinho - Liminha - Rita & Sérgio), se juntam, em participações mais do que especiais: raphael Vilardi, violão e voz; e o percussionista Naná Vasconcelos. Nos arranjos, o tom magistral de Duprat. (Marcelo Dolabela - bhz out/nov 1999).


 
 

1-Top Top
2-Benvinda
3-Tecnicolor
4-El Justiciero
5-It’s Very Nice Pra Xuxu
6-Portugal de Navio
7-Virgínia
8-Jardim Elétrico
9-Lady, Lady
10-Saravá
11-Baby

  JARDIM ELÉTRICO (Polydor, 1971) - Produção: Arnaldo Baptista

Depois de três álbuns - um tropicalista, um experimental e um revolucionário - , o Mutantes lança o seu disco mais estranho. O jardim Elétrico é, sonoramente, bem proxímo da fotografia da contracapa. O quinteto zoando em um estúdio, entre parafernálias elétricas, instrumentos acústicos e alguns estimulantes. Basta notar que pela primeira e única vez, sempre que Rita lee e Sérgio Dias participam como compositores de uma música, é esta a sequência dos nomes, o que, à la Lucy in the Sky with Diamonds, dá para ler L (Lee) S (Sérgio) D (Dias). Disco de zoeira. Traz outro hit do grupo Top Top, um hard rock infernal Jardim Elétrico; uma doce versão (para o inglês) de Baby e uma paródia - homenagem a Tim Maia, Bemvinda. Completando o álbum: Tecnicolor, El Justiceiro; It's Very Nice pra Xuxu; Virgínia; Lady, Lady; Batmacumba e Saravá. (Marcelo Dolabela - bhz out/nov 1999).
 
 

1-Posso Perder Minha Mulher, Minha Mãe,
Desde Que Eu Tenha O Meu Rock and Roll

2-Vida De Cachorro
3-Dune Buggy
4-Cantor de Mambo
5-Beijo Exagerado
6-Balada do Louco
7-A Hora e a Vêz do Cabelo Nascer
8-Rua Augusta
9-Mutantes e Seus Cometas No País do Baurets
10-Todo Mundo Pastou II

 

 

  MUTANTES E SEUS COMETAS NO PAÍS DO BAURETS (Polydor, 1972) - Produção: Arnaldo Baptista

1972 é o primeiro ano (chave) do resto da vida do Mutantes. Com o Baurets, Rita Lee dá adeus ao grupo. Mas antes, se une Arnaldo - Dinho - Liminha & Sérgio no álbum mais rock'n'roll. De Posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha meu rock'n'roll até Rua Augusta, o disco é uma pauleira (ou lenha, como gosta de nomear Arnaldo Baptista) do começo ao fim. E dá-lhe rock and roll em Dune Buggy, Beijo Exagerado e A Hora e a vez do Cabelo Nascer (esta magistralmente regravada pelo Sepultura. Em contraponto, as suavidades ácidas de Vida de Cachorro e o hit dos hits do grupo Balada do Louco. No setor lisergia, a ópera-surrealista-progressiva de Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets, que inclui uma releitura de Tempo no Tempo / I Once There was a Time i Thought, do primeiro disco; e a vinheta dadísta Todo Mundo Pastou I e II. Ainda sobre o Baurets, resta dizer que o título do álbum e a canção homônima relêem mais um pilar da literatura mundial, o inglês Lewis carroll, e seu Alice no País das Maravilhas. É, obviamnte, o senhor Bill Halley e seu topete chuca e seus comets. (Marcelo Dolabela - bhz out/nov 1999)

 
 

1-A e o Z
2-Rolling Stones
3-Você Sabe
4-Hey Joe
5-Uma Pessôa Só
6-Ainda Vou Transar ComVocê

 

  O A E O Z (Philips, 1992; gravado em 1973) - Produção: Mutantes

Com a saída de Rita Lee, o quarteto - Arnaldo - Dinho - liminha e Sérgio - ainda grava, em 1973, um novo disco, que fica inédito até 1992. O A e o Z é a exacerbação da ópera-surrealista-progressiva Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets, do disco anterior. As seis faixas do álbum, embora independentes uma das outras, compões uma longa trilha sonora para um filme à la Zabriskie point, de Antonioni. Viagem. Trip. Good Trip. Da autobiográfica (de Arnaldo) Rolling Stones a Uma Pessoa Só (depois regravada por Arnaldo em seu 1º álbum solo Lóki?, de 1973), o álbum - sintomaticamente chamdo de O A e o Z - é o clique final na maravilhosa história do grupo Mutantes. Algum tempo depois, Arnaldo deixa o grupo e Dinho - Liminha e Sérgio seguem com o projeto (ou novo projeto) Mutantes, mas aí ja é outra história, outra mutação, outro coração, outra trip. (Marcelo Dolabela - bhz out/nov 1999).


 
 

1-Panis Et Circenses
2-Bat Macumba
3-Virginia
4-She’s My Shoo Shoo ( A Minha Menina)
5-I Feel A Little spaced Out (ando Meio Desligado)
6-Baby
7-Tecnicolor
8-El Justiciero
9-I’m Sorry Baby (Desculpe Babe)
10-Maria Fulô
11-Le Premier Bonheur Du Jour
12-Saravah
13-Panis Et Circenses (reprise)

 

TECNICOLOR (Universal, gravado em1970 e lançado em 1999) - Produção: Carl Holmes


"Tecnicolor" – a penúltima última viagem dos Mutantes

Existem coletâneas e coletâneas de sucesso. Na maioria das vezes, são sofríveis. Acompanham o bel-prazer – ou desprazer – das gravadoras. Quase sempre, com a pretensão de atualizar a obra do artista a onda do momento. Se o período é de romantismo, a coletânea deve trazer as canções mais melosas do artista. Poucos artistas têm suas obras bem administradas. Beatles; Madonna; Prince. Roberto Carlos; Marisa Monte; Paralamas do Sucesso.
Os contratos de cessão de direitos fonográficos ainda continuam na idade da pedra. Para as gravadoras, tudo – ou quase tudo. O que já é muito. Para os artistas, a possibilidade de fama, riqueza e glória. Como o risco é grande e com a incerteza não se deve brincar, geralmente, um lado (as gravadoras) ganha e o outro (os artistas) perde.
O mais absurdo dessa situação é a falta de gerência do artista sobre sua própria obra. Isso acontece no universo (da música pop) que mais lucro produz. Na literatura, no cinema, nas artes plásticas, esse desmando é raramente aceito.
Assim, a grande vingança desse "dono que nada possui" é quando ele administra sua coletânea como um lançamento, não como uma colcha de farrapos de retalho para encher mais o cofre das gravadoras.
Sem dúvida, a primeira grande obra dentro desse formato foi a gravação do álbum "Tecnicolor" dos Mutantes, em 1970. Era, ao mesmo tempo, uma brincadeira e um passo à frente, uma coletânea e um álbum de carreira. Pois dava nova roupagem para canções já lançadas pelo grupo. Novas roupagens realmente. Não uma gravaçãozinha com um adereço a mais.
O grupo, em sua proposta de "revolução permanente", no terceiro ano de sua carreira fonográfica (a estréia se deu em 1968 com o álbum "Os Mutantes"), sem medo e sem pudor, revirou e reviu as entranhas de sua história.
Segundo Carlos Calado, "Tecnicolor" é um "título virtual", provavelmente bem posterior. O álbum foi gravado em Paris, em novembro de 1970, no Des Dames Studio. Sob a produção de Carl Holmes.
O álbum, para seguirmos um conceito da época, faz uma coletânea de versões na melhor acepção do Poema/Processo. Isto é, versões a partir de obras primeiras que se transformam em novas obras. É uma espécie de "Abbey Road" (penúltimo disco dos Beatles) às avessas. Esse disco do "Fab Four" foi gravado depois do último ("Let It be") e foi lançado antes. Esse dos Mutantes foi gravado antes do "último" ("Mutantes & Seus Cometas no País dos Baurets") e só lançado duas décadas depois.
O disco é uma antologia especial. Pois reúne repertório recente, do álbum "Jardim Elétrico", do ano: "Virgínia"; "Tecnicolor"; "El justiciero" e "Saravah", com sucessos anteriores. Os "hits" tropicalistas: "Panis et circences" (em duas versões); "Bat macumba"; "She’s my Shoo Shoo" (isto é, a jorgeben-tropicalista "A minha menina") e "Baby", a canção mais regravada pelos Mutantes (três versões); os clássicos "I feel a little spaced out" ("Ando meio desligado"); "Adeus Maria Fulô" e "I’m sorry" ("Desculpe, babe"); e o tributo aos anfitriões franceses, uma regravação de "Le premier bonheur du jour", já gravada no primeiro álbum do grupo.
O efeito-Mutantes da empreitada é que o grupo, não se fazendo de rogado, traduziu quase todas as letras para o inglês. Exceto, obviamente, a concretista e intraduzível "Bat macumba", a brejeira "Adeus Maria Fulô" e a canção francesa. "She’s my Shoo Shoo" ficou mais Jorge Ben ainda. O refrão original, em português, só aparece como coda.
"Tecnicolor" foi lançado em 2000. Além da surpresa pela modernidade sonora, trouxe ilustrações e textos manuscritos assinados por Sean Ono Lennon. Isso mesmo, o filho "inteligente" de Yoko Ono e John Lennon. Que, reza a lenda, disse julgar mais revolucionário o grupo brasileiro do que o olímpico grupo do pai. A colaboração estrangeira foi vista como algum incomodo. Pois, como sempre, a crítica especializada brasileira achou que Sean não era a pessoa mais indicada para conceber a capa. Bobagem, "fosse um dia de sol", como diria Oswald de Andrade, o preconceito tupiniquim entenderia que esse gesto foi mais uma confirmação de que nosso "Astronauta Libertado", a cada dia que passa, por mérito, é mais entronizado no Panteão do pop-rock mundial. E que se aprenda de uma vez, parafraseando, Tom Jobim, Os Mutantes, assim como o Brasil, não é uma coisa para amadores.
(Marcelo Dolabela - bhz out/nov 2005).

 

 

1-Sunshine
2-Sexy Sua
3-Corta Jaca
4-Trem
5-Emergindo da Ciência
6- Raio de Sol
7-Um Pouco Assustador
8-Fique Aqui Comigo

  ELO PERDIDO – ARNALDO & PATRULHA DO ESPAÇO – (Vinil Urbano, 1988, inédito em CD). Produção: Arnaldo & A Patrulha do Espaço

SOLISTA IN SPACE PATROL

Depois do álbum Lóki?, de 1974, e antes do Singin’alone, de 1981, Arnaldo Baptista viveu sua fase hard-rock, ou melhor, sua fase lenha, para usarmos uma expressão sessentista, até hoje do vocabulário de Arnaldo, para designar o ancestral rock pauleira. Nesta viagem no limite máximo, teve por companhia o grupo Patrulha do Espaço.
A viagem lenha começa em 1975, quando Arnaldo estrutura seu novo projeto, o grupo Space Patrol, inicialmente com o baterista Zé Brasil; e, depois, com sua primeira formação definida, com Rufino e Dudu, nas guitarras; Cenoura, no contrabaixo; e Arnaldo, na bateria com dois chimbaus, um de cada lado. Apenas ensaios caseiros, com pequenos amplificadores e a companhia de uma televisão ligada, sem som.
Em 1977, o grupo passa a se chamar Arnaldo & A Patrulha do Espaço, continuando seus ensaios, já com a seguinte formação: John Flavin, na guitarra; Osvaldo Gennari “Cokinho”, no contrabaixo; Rolando Castello Júnior, na bateria; e Arnaldo, no piano e voz. No final do ano, o grupo grava, no Estúdio Vice-Versa, com apoio irrestrito do maestro Rogério Duprat, treze músicas, em dois dias. O material, se adquirido por alguma gravadora, teria uma mixagem definitiva. Sem interesse de gravadora, o disco só veio á cena, mesmo assim parcialmente e a partir de uma rough mix, extraída de uma cópia de dois canais, onze anos depois, em 1988, com o título de Elo Perdido.
Deste período, se revelam doze canções, sendo que sete delas, Arnaldo regravaria no Singin’ Alone, ou na versão original ou vertida para o inglês/português, com sutis, mas fundantes, modificações em seu texto.
Elo Perdido repete do Singin’ Alone: O Sol, com o título de Sunshine; Corta-jaca; Trem/Train; Emergindo da Ciência/ Coming Through the Waves of Science; e Raio de Sol/Sitting on the road side.*
De inéditas, temos: Sexy Sua, canção de amor e sexo composta para a ex-namorada Martha Mellinger, com seu título/refrão trocadilhescos – sua: verbo? Pronome? -, pode ser resumida como um culto/exercício prático da libido.
Um pouco assustador, exercita segundo Arnaldo, o jogo reativo de encontros telepáticos. Onde, quem participa do encontro se assusta e se auto conhece.
E Fique Aqui Comigo, Arnaldo trava um diálogo com uma visitante desconhecida, que seria. Ao mesmo tempo, parceira e platéia de um show-conversa mental. (Marcelo Dolabela - bhz out/nov 1999).
*Conforme informação de Arnaldo Baptista, o nome correto da música Raio de Sol é: Sentado ao Lado da Estrada.

 
 

1-Emergindo da Ciência
2-Um Pouco Assustador
3-Arnaldo Soliszta
4-I Feel In Love One Day
5-Cowboy
6-Hoje de Manhã Eu Acordei

 

  FAREMOS UMA NOITADA EXCELENTE - ARNALDO & PATRULHA DO ESPAÇO – (Vinil Urbano, 1988, inédito em cd). Ao Vivo. Produção: Roberto Takaharu Oka.

Em maio de 1978, já com mais um guitarrista, Eduardo Chermont, o grupo se apresenta no Teatro São Pedro, em São Paulo – SP. Da noite sairia uma gravação amadora, lançada, em 1988, no álbum Faremos Uma Noitada Excelente...
O disco traz as já conhecidas: Emergindo da Ciência, Um Pouco Assustador, Fell in Love One Day, Cowboy e Hoje de Manhã Eu Acordei, de inédita somente a instrumental Arnaldo Soliszta, improviso ao piano, à maneira de Hermeto Pascoal. O título foi dado, posteriormente, por Rolando Castello Júnior e abarca as várias capacidades e saberes de Arnaldo: pianista, solista, fã do compositor húngaro Franz Liszt (1811-1886) e, obviamente, solista, amante do sol, leia-se, sunshine/LSD.
Nestes dois falsos rascunhos, na verdade songbooks de sobrevivência e luta, Arnaldo escreve, em forma de mosaico, sua revolucionária obra, entre a louca-lucidez que envolve projetos de diálogos e interlocuções, entre palco e platéia, passado e futuro, vida e arte, ciência e sonho, revelando que há sempre algo que falta, algo que ficou irremediavelmente perdido, e que, a cada descoberta, percebemos que é a incompletude que nos completa. A obra solo de Arnaldo é isto, lacunas e elos perdidos que se completam permanentemente.
Assim, que tenhamos novos e bons ouvidos e sejamos bem-vindos ao Jardim do Sonho e da nova Ciência desta eterna nova música chamada: Arnaldo Dias Baptista. (Marcelo Dolabela - bhz out/nov 1999).

 

 

1-Será Que Eu Vou Virar Bolor?
2-Uma Pessôa Só
3-Não Estou Nem Aí
4-Vou Me Afundar Na Lingerie
5-Honky Tonky
6-Cê Tá Pensando Que Eu Sou Loki?
7-Desculpe
8-Navegar de Nôvo
9-Te Amo Podes Crer
10-É Fácil

  LÓKI? – ARNALDO BAPTISTA - (Philips, 1974) – Produção: Arnaldo Baptista

Jean-Luc Godard, depois de experimentar várias radicalidades, demarcou o território impossível de um artista: “Ninguém faz duas revoluções”, e concluiu: “Ainda bem”.
Era como se mandasse um recado e predestinasse uma outra voz para a esfinge, em forma de eufemismo, de paradoxo, de axioma.
João Gilberto fez a revolução bossanovística; Oswald de Andrade, o pau-brasil/antropófago; Hélio Oticica, os parangolés do experimentar o experimental. Com a Tropicália, que, antes de estabelecer plenamente, foi “abortada”, pelo AI-5 e suas seqüelas, talvez a maldição godardiana foi diferente, cada tropicalista seguiu seu rumo.
Com os Mutantes, não foi diferente. Arnaldo Baptista – Rita Lee & Sérgio Dias escreveram parábolas dentro e a partir de parábolas. Viveram suas possibilidades coletivas, paralelas e individuais.
Arnaldo, na musicografia tropicalista e na própria música brasileira, é o artista que saques produziu para quebrar a maldição godardiana. Depois de ser o motor dos Mutantes. Depois de produzir os primeiros álbuns solos de Rita Lee _ Bluid up, 1970 e Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida, de 1972. Depois de ir e vir. E partir para a carreira solo. Levou o conceito de radicalização ao extremo. Seu primeiro álbum-solo: Lóki? (Philips, 1974), é, até hoje, o disco mais visceralmente revolucionário da música brasileira . Com um instrumental mínimo – teclado (Arnaldo), contrabaixo (Liminha), bateria (Dinho) e backing-vocals (Rita Lee) – (o último encontro dos Mutantes), Lóki?, em dez canções, passa a limpo toda a era do rock and roll e o que poderia ter sido uma tropicália lisérgica. Sem dúvida, o melhor elenco de canções incluídas em um único álbum.
O formato do álbum é conceituado. Os dois lados do disco abrem com canções chaves. O lado A com “Será que vou virar bolor” e o lado B “Ce ta pensando que sou Lóki?”. Ambas trazem as inquietações pós-Mutantes de Arnaldo. Qual o futuro? O esquecimento? (Bolor) ou A loucura? (Lóki?). As outras oito canções vão respondendo, cada uma, de uma forma e de um ponto-de-vista. A minimalista canção final “È fácil”, responde com uma melodia supertrabalhada e uma miniletra: nem o esquecimento nem a loucura, mas a genialidade da música. É fácil!
As outras canções são: “Uma pessoa só”, única faixa herdada dos Mutantes, da época do A e o Z. Canção utópica que aponta para a plenitude da convivência humana, em um único corpo e em um único projeto de vida.
“Não estou nem ai” é a antítese de “Uma pessoa só”, o antípoda que nega os projetos utópicos e enfrenta o mundo material, o instant karma da vida cotidiana.
Continuando, a quarta canção do lado A é “Vou me afundar na lingerie” é a terceira possibilidade, nem o mundo utópico, nem a dureza da vida cotidiana, mas o hedoismo, o ócio, a prequiça como destruidores das opressões e barras-pesadas.
Fechando o lado A, a instrumental “Honky tonky”, com apenas Arnaldo no piano, em um misto de boogie woogie e levada trans-stoneana, trans-“Honky tonky woman”.
O lado B, depois de “Ce ta pensando que sou Lóki?”, traz “Desculpe”,uma releitura de “Desculpe, babe”, de Arnaldo Baptista & Rita Lee , do álbum A divina comédia ou ando meio desligado, dos Mutantes de 1969. É uma outra resposta para o impasse: esquecimento/ bolor/ lóki/ loucura. O “amor” como a grande questão. O dizer sim ou não. Perdoar ou não. Seguir em frente.
A terceira canção “Navegar de novo” é uma resposta concisa. É o bola pra frente”, “o enfrentar as intempéries” e “seguir”.
A Cançao sequinte “Te amo podes crer” é, talvez, a obra-prima das canções de amor do rock brasileiro. Em dois minutos e cinqüenta segundos, Arnaldo faz um tratado das dores de amores, um Werther, um Tristão e Isolda, um Romeu e Julieta com piano, sintetizador, contrabaixo elétrico e bateria.
Fechando, a chave-de-ouro de “É fácil”.
E o conceito faz clique e se completa. Na era do CD, algumas informações se perdem, mas uma que, no vinil, fazia muito sentido ainda vale ser comentada. Os dois lados do disco (A e B) trazem exatamente 16 minutos e 50 segundos, nem um nem dois segundos a mais ou a menos. E no rodapé da ficha técnica, uma única nota: “Este disco é para ser ouvido em alto volume”. Aumentar o volume não só do aparelho, mas do rock e das emoções primitivas de cada um. (Marcelo Dolabela - bhz out/nov 1999).


 
 

1-I Fell In Love One Day
2-O Sol
3-Bomba H sôbre São Paulo
4-Hoje de Manhã Eu Acordei
5-Jesus Come Back To Earth
6-The Cowboy
7-Sitting On The Road Side
8-Ciborg
9-Corta Jaca
10-Coming Through The Waves Of Science
11-Young Blood
12-Train

 

  SINGIN’ ALONE – ARNALDO – II ÁLBUM – (Baratos Afins, 1982) – Produção: Arnaldo Baptista.

O CIBORG VALVULADO SINGIN’ ALONE.
Oito anos depois do último disco com os Mutantes – O A e o Z, lançado só em 1992, sete anos após seu primeiro álbum-solo – Lóki? – e depois de várias de várias experiências sonoras com o grupo Patrulha do Espaço, Arnaldo, em 1981, à maneira de Paul McCartney. Nos álbuns McCartney, de 1970; o McCartney II, de 1981, volta aos estúdios para gravar, tocando todos os instrumentos, as doze músicas do álbum Singin’ alone. Se Lóki? Trazia toda a genealidade desesperada de suas viagens pós-Mutantes, agora, Arnaldo teria de provar para si mesmo que todas suas teorias e propostas musicais, que o afastaram dos Mutantes, faziam sentido. Sua quase hercúlea obsessão pela amplificação valvulada, em detrimento da transistorizada, sua opção por guitarra Gibson Les Paul, ao invés de Fender, e por contrabaixo Gibson SG.
Antes, que o álbum viesse à luz, Arnaldo fora internado no Hospital do Servidor Público do Estado. Dias depois, se atira do terceiro andar, do setor de psiquiatria. Com várias lesões, fica, na estação do inferno, por longos e sofridos quatro meses. Somente em maio de 1982, começa a receber licença para deixar, temporariamente, o hospital. Numa dessas idas, se recusa a voltar. Sob os cuidados de Lucinha Barbosa, sua companheira, e da DJ Sônia Abreu, vai aos poucos emergindo.
Para ver, ainda no primeiro semestre de 1982, a estreante gravadora Baratos Afins, do amigo e fã Luís Calanca, lançar, enfim, seu álbum Singin’ alone / Arnaldo II álbum. Num quase-lançamento, Arnaldo realiza o show Abrindo a porta para uma nova vida, no Tuca. Embora sem reais condições psicológicas, o show serve para recomeçar uma vida nova.
Se Lóki? É visceralmente explícito, o Singin’ alone traz o outro lado da revolta. Embora, mais suave, resgata sentimentos e memórias, faz planos e discursos e arremata diálogos e utopias.
Doze faixas compõem o disco.
“I fell in love one day “ é uma espécie de outro lado da canção How do you sleep?, de John Lennon, lançada um ano após o término oficial dos Beatles, no álbum Imagine, em 1971, cujo tema central é a desilusão com o antigo parceiro Paul McCartney. Arnaldo, em seu lamento, fala de suas principais paixões, ou melhor, ilusões perdidas –a best friend, a wife, a house, a group – e da dúvida de possíveis reencontros. Ou, como bem resume o próprio artista: I fell in love one day relata, em letra, o avassalador poder destrutivo de certas seduções.
“ O sol” traz o personalíssimo estilo de texto de Arnaldo, mesclando inglês com português, e neologismo – superpopulado – e deslocamento metafóricos: sunshine = sol = ácido = LSD.
Em “Bomba H sobre São Paulo”, Arnaldo vê a cidade de São Paulo sob um imenso cogumelo atômico, do alto da Serra da Cantareira, onde os Mutantes, já sem Rita Lee, tinham casas _ a house perdida de I fell in love one day -. Ao mesmo tempo que se vê São Paulo sendo destruída, percebe que a Cantareira não escaparia à hecatombe. Por sinal, foi na Cantareira que um incêndio destruiu, por problema elétrico, o caminhão de som do grupo, o Chevrolet Tenório.
“Hoje de manhã eu acordei” é outra canção que trabalha um velho tema pós- Mutantes, a necessidade de dialogar com alguém que realmente entenda os novos tempos. Sai em forma de monólogo e se constrói em oposições vitais: sol x arco-íris; eu x o outro; amor x solidão; Eros x Thanatos; vida x morte.
“Jesus, come back to earth” tematiza, segundo o próprio autor, a fé em um Deus geral, um ente superior, no sentido tecnológico e não divino, e o fascínio do desconhecimento de sua sabedoria. Que, em síntese, ao ser compreendido, todos os mistérios serão elucidados.
“Cowboy” foi composta a partir de um exercício de aprimoramento na técnica de executar o contrabaixo. A letra traz temas míticos de Arnaldo: sonho x ciência, motocicletas e as viagens.
“Raio de sol”, vertida para o inglês, com o título “Sitting on the road side”, foi composta na estrada de Catanduva, e fala da dualidade cansaço x repouso; ausência x presença; solidão x companhia. Enquanto se espera a condição para voltar o mundo que deixou para traz, não custa pensar um pouco sobre o que já viveu.
“Ciborg” fala da preponderância da matéria em relação a vida espiritual, da relação vida biológica x vida cibernética. E quando surgirá o ciborg perfeito?
“Corta-jaca”, boogie-honk-tonk-rock’n’roll, em homenagem ao avô paterno Horácio Baptista, ex-prefeito da cidade paulista de Avaré, é outra canção composta em uma viagem, à pé, entre São Paulo e Catanduva. O título remete à canção homônima de Chiquinha Gonzaga (1847-1935), de 1897, e ao duplo-sentido do termo: passo tradicional do samba-de-roda e bajulador, Na letra, Arnaldo, se utiliza do tema folclórico se essa rua fosse minha..., joga com os opostos: cidade x roça; rock’n’roll x cha cha cha; passado x presente.
“Coming throuth the waves of science” é a síntese da nova proposta existencial e musical de Arnaldo. Claramente dedicada à sua saída dos Mutantes e ao (ex-)amigo Michael J. Killinbeck, engenheiro nuclear inglês, que no início doa anos 70, morou no Brasil e foi um dos colaboradores da edição nacional da revista Rolling Stone. A música é um manifesto-editorial que fala da desilusão, da descrença da entrega a amigos e a projetos ideológicos e utópicos, com direito a citação da stoneana Let spend the night together.
“Young blood”, canção dedicada à Silvia Helena, parceira do músico Zé Brasil, co-fundador com Arnaldo da Space Patrol. O papo é, ao mesmo tempo, juvenil – culto à beleza física – e metafísica – e que só a compreensão e o uso desta beleza/potência, num sentido quase nitzscheano, poderá dar fim a opressões e hipocrisias.
“Train”, outra canção de estrada, composta em Londres, fala da hora necessária de se voltar, porém, surge a pergunta: voltar para onde? Se a canção, aparentemente, não responde, o palimpsesto (o novo papiro brasileiro) rock de Singin’ alone responde:voltar, para Arnaldo Baptista, é, ao mesmo tempo, se distanciar, em alta velocidade, do passado, e viabilizar, o mais rapidamente, seus projetos futuros.
E como bônus na edição do cd, fechando com chave de ouro , “Balada do louco”, de Arnaldo Baptista & Rita Lee, do álbum Mutantes e seus Cometas no País do Bauretz, de 1972, não poderia ter sido melhor escolha. Primeira versão integral de Arnaldo para este eterno hit dos Mutantes (a voz da gravação original é de Sérgio Dias; e no álbum Disco voador, de 1987, Arnaldo verte o texto para o inglês – Crazy-one’s ballas) prova que o Ciborg está plenamente em forma para novos projetos.
Com produção artística de Guto Graça Mello, arranjos e regência de cordas de Daniel Salinas, e, na parte musical, o supertime formado por: Márcio Lomiranda (da banda de Marina Lima), nos teclados – Wander Taffo (ex-Joelho de Porco, Secos & Molhados e Rádio Táxi), na guitarra-solo – e, de empréstimo da banda de apoio de Marisa Monte, o contrabaixista Fernando Nunes e o baterista Cezinha.
Alone & together, Arnaldo incendeia as válvulas da criatividade. (Marcelo Dolabela - bhz out/nov 1999).

 
 

1-Eu
2-Rodas
3-Crazy Ones Ballad
4-Traduções
5-Ovni
6-Maria Lucia
7-Jesus Volte Até aTerra
8-Le foulle Balad
9-I wanna To Take off Every Morning

 

 

DISCO VOADOR - ARNALDO (BARATOS AFINS 1987, inédito em CD)

Em 1987, Arnaldo lança sua mais radical experiência. Pela Baratos e Afins sai a gravação caseira – somente para fãs e experts – Disco Voador Arnaldo Paz. Um songbook que capta o artista em seu ambiente, em sua oficina-estúdio. A gravação é tosca, mas traduz da melhor forma possível o mundo musical de Arnaldo, onde estão presentes suas experiências sonoras e sua opção de timbres. Sua voz com vibrato, seus teclados destorcidos. A grande surpresa do álbum são as duas versões de “Balada do Louco” (Arnaldo Baptista & Rita Lee) que Arnaldo faz para o inglês – “Crazy one’s ballad” – e para o francês – “Lê foulle balad”. Outra ótima sacada é a tradução de ”Jesus, come back to earth” para o português “Jesus volte até a terra”. Mais seis canções completam o disco: “Eu”, “Rodas”, “OVNI”, “Maria Lúcia”, “I wanna to take off every morning”, (todas de Arnaldo) e a parceria de Arnaldo & A. Alexandre: “Traduções”.
O Título-capa do álbum é uma verdadeira arnaldice. Jogando com o trocadilho disco (álbum/vinil) e disco-voador, o desenho (de Arnaldo) da capa une as duas imagens e amplia o trocadilho/metáfora: o álbum é um disco (vinil) e um disco-voador raro (o álbum teve edição limitada) e real. No meio do desenho, a palavra PAZ simula o centro do espaço celeste e o furo do vinil que sustenta o disco no prato do toca-disco. Ao girar, gira também o céu e o vinil, revelando onde está o disco-voador e as canções. (Marcelo Dolabela - bhz out/nov 1999).




 

 

1-Sucesso, Aqui Vou Eu
2-Calma
3-Viagem ao Fundo de Mim
4-Precisamos de Irmãos
5-Macarrão Com Linguiça e Pimentão
6-José
7-Hulla-Hulla
8-And I Love Her
9-Tempo Nublado
10-Prisioneira do Amor
11-Eu Vou Me Salvar

  BUILD UP - RITA LEE (Polydor - 1970) - Direção Musical: Arnaldo Baptista

A música pop se funda na relação entre novidade e redundância. Nesse jogo dialético, podemos medir o grau de importância de um artista e de uma obra.
Os LPs “Build up” e “Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida”, primeiros álbuns solos de Rita Lee, lançados, respectivamente, em 1970 e 1972, só podem ser lidos se bem entendida essa relação.
São praticamente inclassificáveis. São obras solos e, ao mesmo tempo, “codas” e complementos da discografia oficial/não-oficial dos Mutantes.
Nesses dois momentos, Rita Lee, ainda, era membro efetivo dos Mutantes. Mas, mesmo assim, se lançou na empreitada de projeto solo.
Atitude, relativamente, normal e salutar. Principalmente se entendermos essa opção como oxigênio para a trajetória de um grupo.
No Brasil, Mingo, dos grupos The Clevers/Os Incríveis, foi o primeiro artista a caminhar por essa vereda.
Porém, o que surpreende nos dois LPs de Rita Lee é que não foi respeitada a regra básica: “seguir um rumo (individual) diferente das propostas do grupo”. Afinal, para fazer “do mesmo”, é melhor fazer “o mesmo”. Isto é, mais um disco do grupo. A partir da década de 1980, essa prática se tornou comum: os titãs Sérgio Brito e Paulo Miklos; Edgar Scandurra e Nazi, do Ira!; Herbert Vianna, do Paralamas do Sucesso; Frejat, do Barão Vermelho; Paula Toller e George Israel, do Kid Abelha. Todos realizaram discos-solos com traços para além dos muros da discografia do grupo.
Com Rita Lee, nessas ocasiões, foi diferente. Foi “o mesmo” inovador. Ou “uma inovação” sobre o mesmo tema. Trocando o nome na capa e no selo do disco – Rita Lee por Mutantes, ninguém perceberia que estivesse ouvindo um álbum solo. Mas como essa troca não foi realizada, estamos diante de dois álbuns exclusivos de Rita Lee. E que só existiriam da forma que foram lançados, como discos solos. Estão, em uma avaliação, mais detalhada, quilômetros de distância da discografia dos Mutantes. Principalmente, se compararmos “Build up” com a hiper-experimentação tropicalista de “A Divina Comédia ou ando meio desligado” e “Hoje é o primeiro dia do resto de sua vida” com a lisergia psicodélica de “Mutantes e seus cometas no País dos Bauretz”, lançados nos mesmos períodos. Dois personagens à procura de um autor? Um personagem se multiplicado em dois autores?
A planta baixa dos dois discos solos são relativamente semelhantes:
(1) composições do núcleo básico – Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias + Liminha;
(2) arranjos de Arnaldo; e
(3) acompanhamento dos Mutantes.
“Build up” serviu de base para o espetáculo “Bulid up eletronic fashion show”, da Rhodia, na Fenit (Feira Nacional da Indústria Têxtil), em agosto daquele ano, que narrava a trajetória e os (des)caminhos de uma artista (Rita Lee) rumo aos estrelato.
Das canções do disco, temos da dupla Rita & Arnaldo: “Sucesso, aqui vou eu (Build up)” e “Macarrão com lingüiça e pimentão”; de Rita e Elicio Decário – que, na época, colaborou com “A Divina Comédia” com “Ave Lúcifer”, parceria com Rita & Arnaldo; e “Hey boy”, com Arnaldo: “Hulla-hulla” –: “Tempo nublado” e “Eu vou me salvar”; de Decário solo: “Precisamos de irmãos” e “Prisioneira do amor”; de Arnaldo: “Calma”; a primeira composição assinada apenas por Rita: “Viagem ao fundo de mim”; e “José (Joseph)”, versão da parceira de tropicalismo Nara Leão de uma composição de Georges Moustaki; e o bolero-beatle “And I love her (And I love him)”.
A faixa-título é a canção-roteiro. Embora o título “Build up” estabeleça a idéia de “construção pública de uma imagem”, o álbum, na verdade, se compõe de canções que sugerem “a construção individual e íntima de Rita Lee”, uma avassaladora “viagem”, como sinaliza uma das canções, “ao fundo de mim”. Tirando o nonsense da letra-receita de “Macarrão com lingüiça e pimentão” e o lirismo de “José”, todas as outras letras são expressamente registradas na primeira pessoa do singular (EU), com pequenas variações para o plural (NÓS) ou desdobramento do EU + VOCÊ:
“Já estou até vendo / meu nome brilhando / E o mundo aplaudindo / Ao me ver cantar / Ao me ver dançar / I wanna be a star... / Eu direi adeus / Aos sonhos meus / Sucesso, aqui vou eu... / Eu vou lutar / Eu vou subir e conseguir...”; “Calma, calma / Sinto, mas tudo que eu quero / É só fugir de você...”; “... Em câmara lenta voar / Eu sinto você me amar...”; “Eu preciso de canções e amigos / De amor, de flores, de abrigo...”; “Estou indo para uma ilha...”; “Onde estará você, meu amor? / Onde estará você?...” e “Eu vou me salvar / Eu vou me salvar / Para garantir a minha vida eterna...”. (Marcelo Dolabela - bhz jul/agosto 2005).

 
 

1-Vamos Tratar da Saúde
2-Beija-me Amor
3-Hoje é o Primeiro Dia do Resto da Sua Vida
4-Teimosia
5-Frique Comigo
6-Amor Branco e Preto
7-Toroleite
8-Tapupukitipa
9-De Novo Aqui Meu Bom José
10-Superfície do Planeta

 

 

  HOJE É O PRIMEIRO DIA DO RESTO DE SUA VIDA (Polydor - 1972) - Direção de Produção: Arnaldo Baptista.

Dois anos após “Build up”, Rita Lee lança seu segundo álbum solo. A situação já é bem diferente. Se antes, Rita ainda era uma efetiva mutante; agora, a opção do grupo pelo rock progressivo (leia-se: influência do grupo Yes), praticamente jogava a artista para fora do Planeta dos Bauretz. Seu segundo disco é uma despedida e, ao mesmo tempo, o álbum mais Mutantes de todos os trabalhos do grupo. Nenhum dos seis álbuns da primeira fase do grupo – 1968-1972 – foi composto exclusivamente pelos integrantes, todos tiveram colaborações externas. O “Hoje é...”, não. Todas as faixas foram compostas pelo núcleo Arnaldo-Rita & Sérgio + Liminha: “Vamos tratar da saúde”; “Beija-me, amor”; “Hoje é o primeiro dia do resto da sua vida”; “Teimosa”; “Frique comigo”; “Amor branco e preto”; “Tiroleite”; “Tapupukitipa”; “De novo aqui, meu bom José?” (resposta irônica a lírica “José (Joseph)”, do “Build up”); “Superfície do planeta”. A censura retalhou algumas letras que, de ácidas, se transformaram em líricas. Em “Beija-me, amor”, ouvimos: “Para que eu sinta o seu gosto / Mesclado com o gosto de amor / “Mastigado entre os dentes meus...”. Mas, na verdade, o texto original dizia: “Para que eu sinta a saliva / E o gosto de cuspe / Escorrendo entre os dentes meus...”, (cf.: Carlos Calado: “A Divina Comédia dos Mutantes”, pág.285).
O único furo (novidade) no bloqueio-Mutantes é a (estréia) participação da cantora, compositora e instrumentista Lucia Turnbull, nos vocais. Futura parceira de Rita no projeto pós-Mutantes Cilibrinas do Éden, em 1973. Dupla que serviria de base, no ano seguinte, para o grupo Tutti Frutti, com a entrada do guitarrista Luiz Sérgio e do contrabaixista Lee Marcucci. Álbum de estréia: “Atrás do porto tem uma cidade”.
Embora contemporâneo do LP “Mutantes e seus cometas no País dos Bauretz”, “Hoje é...” é um volta e/ou um símile do primeiro disco do grupo – “Os Mutantes –, de 1968. Uma audição (e uma visão) atenta de ambos mostra a estranha e estrondosa semelhança. A começar pelas capas: o álbum de 1968 traz, na contracapa, um pequeno desenho do grupo feito por Rita; no álbum solo, a capa traz um auto-retrato de Rita, a simplicidade gráfica esconde para revelar um dos elementos básicos da estética do grupo: o humor. O que, infelizmente, a opç&a